quinta-feira, junho 19, 2014



Ar livre, que não respiro!
Ou são pela asfixia?
Miséria de cobardia
Que não arromba a janela
Da sala onde a fantasia
Estiola e fica amarela!

Ar livre, digo-vos eu!
Ou estamos nalgum museu
De manequins de cartão?
Abaixo! E ninguém se importe!
Antes o caos que a morte...
De par em par, pois então?!

Ar livre! Correntes de ar
Por toda a casa empestada!
(Vendavais na terra inteira,
A própria dor arejada,
- E nós nesta borralheira
De estufa calafetada!)

Ar livre! Que ninguém canta
Com a corda na garganta,
Tolhido da inspiração!
Ar livre, como se tem
Fora do ventre da mãe,
Desligado do cordão!

Ar livre, sem restrições!
Ou há pulmões,
Ou não há!
Fechem as outras riquezas,
Mas tenham fartas as mesas
Do ar que a vida nos dá!


Miguel Torga - Ar Livre


3 comentários:

vih disse...

Que lindo! Acho que você já deve saber, mas amo poesia, fico encantada quando leio uma. Incrível como combinou com a foto, afinal, nada mais livre que a brisa do mar né? (:
Beijos rimados pra você :*

alfacinha disse...

ola Isabel,
De preferência, quereria estar sentado numa duna com um livro na mão ,olhando para o mar.
Cumprimentos de Antuérpia

Ana Tapadas disse...

Querida Isabel,
que maravilha de escolha: a límpida palavra de Torga e a tua arte fotográfica!

E eu mergulhada em trabalho de fim de ano...respirei fundo.

Beijinho