Sabedoria popular
quarta-feira, fevereiro 26, 2014
sábado, fevereiro 22, 2014
terça-feira, fevereiro 18, 2014
O medo vai ter tudo
pernas
ambulâncias
e o luxo blindado
de alguns automóveis
Vai ter olhos onde ninguém os veja
mãozinhas cautelosas
enredos quase inocentes
ouvidos não só nas paredes
mas também no chão
no tecto
no murmúrio dos esgotos
e talvez até (cautela!)
ouvidos nos teus ouvidos
O medo vai ter tudo
fantasmas na ópera
sessões contínuas de espiritismo
milagres
cortejos
frases corajosas
meninas exemplares
seguras casas de penhores
maliciosas casas de passe
conferências várias
congressos muitos
óptimos empregos
poemas originais
e poemas como este
projectos altamente porcos
heróis
(o medo vai ter heróis!)
costureiras reais e irreais
operários
(assim assim)
escriturários
(muitos)
intelectuais
(o que se sabe)
a tua voz talvez
talvez a minha
com certeza a deles
Vai ter capitais
países
suspeitas como toda a gente
muitíssimos amigos
beijos
namorados esverdeados
amantes silenciosos
ardentes
e angustiados
Ah o medo vai ter tudo
tudo
(Penso no que o medo vai ter
e tenho medo
que é justamente
o que o medo quer)
*
O medo vai ter tudo
quase tudo
e cada um por seu caminho
havemos todos de chegar
quase todos
a ratos
Sim
a ratos
Alexandre O'Neil - Poema Pouco Original do Medo
sexta-feira, fevereiro 14, 2014
Há quem julgue que nos venceu
só porque estamos para aqui, famintos e nus,
de novo sem terra nem céu,
a apanhar do chão,
às escondidas do luar,
os frutos podres caídos dos ramos.
Mas não.
Temos ainda uma arma de luz
para lutar:
SONHAMOS.
... enquanto os outros, os traidores,
sem lutas nem cicatrizes
entregam a terra ao resto dos gamos
e douram os olhos dos velhos senhores
com voos de perdizes...
Sim, sonhamos.
E o sonho quem o derrota?
...mesmo quando vamos
perdidos na rota
de um barco sem remos
na tempestade de um vulcão.
Sim, camaradas, sonhamos.
SONHEMOS!
O Sonho é também acção .
José Gomes Ferreira - Termidor Errado (O Sonho é a nossa arma)
terça-feira, fevereiro 04, 2014
sábado, fevereiro 01, 2014
quarta-feira, janeiro 29, 2014
sexta-feira, janeiro 24, 2014
Por que está "esta gente" tão feliz?
E escrevo "esta gente" como leio em qualquer jornal, em artigos de opinião. Parece que se chegou a um acordo tácito na forma de os descrever.
Porém também se poderiam chamar de Robin Wood, mas ao contrário, invertidos.
Explicando: Robin Wood roubava aos ricos para dar aos pobres. "Esta gente" rouba aos pobres para dar aos ricos.
E voltamos à questão: Por que está "esta gente" tão alegre, feliz mesmo, a inchar pelas costuras?
Olho à minha volta e só vejo pessoas com queixas amargas. Foram espoliadas nos seus bens mas, principalmente, na sua dignidade e na sua boa-fé.
Conseguir este "grande feito" em que só eles estão felizes e o resto da portugueses, não?
Chega a ser acintoso mostrar tanta felicidade.. Para eles estarem assim, há muita gente na miséria, sem meios de sobrevivência, sem os seus negócios, sem os seus filhos que emigraram.
Portanto, e tal como as hienas que riem, riem de quê?
segunda-feira, janeiro 20, 2014
quarta-feira, janeiro 15, 2014
Acho tão natural que não se pense
Que me ponho a rir às vezes, sozinho,
Não sei bem de quê, mas é de qualquer coisa
Que tem que ver com haver gente que pensa...
Que pensará o meu muro da minha sombra?
Pergunto-me às vezes, isto até dar por mim
A perguntar-me coisas...
E então desagrado-me, e incomodo-me
Como se desse por mim com um pé dormente...
Que pensará isto daquilo?
Nada pensa nada.
Terá a terra consciência das pedras e plantas que tem?
Se ela a tiver que tenha...
Que me importa isso a mim?
Se eu pensasse nessas coisas,
Deixaria de ver a Terra,
Para ver só os meus pensamentos...
Entristecia e ficava às escuras,
E assim, sem pensar tenho a Terra e o Céu.
Fernando Pessoa/Alberto Caeiro
sábado, janeiro 11, 2014
...
És frio, Inverno,
e os teus cachos
de neve negra e água
no telhado
perfuram as casas
como agulhas.
Nada te detém.
Começam
os ataques de tosse, saem as crianças
com os sapatos encharcados,
nas camas a febre
é como
a vela de um navio
incendiada,
a cidade dos pobres
navegando para a morte,
a mina
escorregadia,
a batalha do vento.
...
Pablo Neruda - Ode Ao Vento (excerto)
sexta-feira, janeiro 03, 2014
segunda-feira, dezembro 30, 2013
terça-feira, dezembro 17, 2013
quarta-feira, dezembro 11, 2013
Sou de uma Europa de periferia
na minha língua há o estilo manuelino
cada verso é uma outra geografia
aqui vai-se a Camões e é um destino.
Velas veleiro vento. E o que se ouvia
era sempre na fala o mar e o signo.
Gramática de sal e maresia
na minha língua há um marulhar contínuo.
Há nela o som do sul o tom da viagem
O azul. O fogo de Santelmo e a tromba de água.
E também o sol. E também a sombra.
Verás na minha língua a outra margem
Os símbolos os ritmos os sinais.
E Europa que não mais Mestre não mais.
Manuel Alegre - A Fala
sexta-feira, dezembro 06, 2013
Morreu Nelson Mandela.
A notícia correu todo o Mundo e em todo o Mundo o seu nome é conhecido e respeitado.
Foi o Homem que eliminou a frase indigna : "Whites only" por uma democracia plena e próspera.
A sua luta, o seu exemplo, a sua extraordinária humanidade ficarão para sempre no panteão da História.
Fotografia do Google
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