sexta-feira, maio 24, 2013



Há qualquer coisa aqui de que não gostam
da terra das pessoas ou talvez
deles próprios.
Cortam isto e aquilo e sobretudo
cortam em nós
culpados sem sabermos de quê
transformados em números estatísticas
défices de vida e de sonho
dívida pública dívida
de alma
há qualquer coisa em nós de que não gostam
talvez o riso esse
desperdício.
Trazem palavras de outra língua
e quando falam a boca não tem lábios
trazem sermões e regras e dias sem futuro
nós pecadores do sul nos confessamos
amamos a terra o vinho o sol o mar
amamos o amor e não pedimos desculpa.

Por isso podem cortar
punir
tirar a música às vogais
recrutar quem vos sirva
não podem cortar o verão
nem o azul que mora
aqui
Não podem cortar quem somos.


Manuel Alegre - Resgate
Águeda 23/12/2012

3 comentários:

alfacinha disse...

Portugal ,país dos poetas.
Poema esplêndido
cumprimentos de Antuérpia

Ana Tapadas disse...

Querida Isabel,
que grande poema! Infelizmente a realidade que está por detrás tende a piorar...

Beijinho grande

Anónimo disse...

É por isso que me identifico tanto com Manuel Alegre. Um Homem que escreve uma realidade em que acredita, mas, não vive. Nós vivemos no País mais bonito do mundo. Pois eu acredito não em pessoas, mas em momentos e os meus são intensos. Por vezes tristes. Por vezes vazios. Por vezes nada e de repente tudo e nesse momento sou feliz. Seja esse tudo um beijo da minha filha ou uma refeição ou, apenas existir; o que é uma dádiva diária, por isso se chama presente!

Abraço.